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Cuidado!

 

O começo é discreto, insidioso. Quase não percebemos o que estamos fazendo. Tomamos contato quase que sem querer. Surgem em nossas mãos e simplesmente nos apropriamos e fazemos uso. E usando, começamos a tomar gosto. Quando vemos, já é tarde. Estamos completamente envolvidos. Claro que não de início. Isso pode levar algum tempo.

As primeiras doses são leves e consumidas sem cuidados ou atenção. Mais nos interessamos pela forma do que pelo conteúdo, mas o aroma já nos domina.

Após essa fase inicial, optamos por algo mais substancial, que dê mais prazer, mais empolgação, mas ainda não muito. Nada que nos deixe preocupados. Estamos apenas no início do caminho e temos convicção que temos o controle da situação. Todos pensam assim...

Ao longo do tempo, porém, as exigências aumentam. O volume do consumo importa. Sua qualidade também. Já não podemos mais nos contentar com pouca coisa. Não resistimos mais ao seu chamado. Não resistimos ao seu cheiro e à sua textura. Temos de tocá-lo com nossas mãos trêmulas de ansiedade. Almejamos por seu estímulo, pelas viagens que proporciona. Não nos contentamos com uma unidade ou outra que nos chega aleatoriamente. Começamos a comprar. Vamos em busca de fornecedores! Chegamos a pedir para os amigos mais chegados. Somos capazes de qualquer loucura para conseguir o que queremos.

Nosso círculo de amizades envolve outros consumidores que se incentivam mutuamente e isso dificulta ainda mais o resistir.

Cada vez mais precisamos de doses muito, muito mais pesadas, e quando percebemos... estamos diante de uma biblioteca considerável!

Isso mesmo. Estou falando do vício em livros.

Vai aqui meu desabafo. Eu sou viciada em livros! Pronto! Falei. Confesso. Não há grupo de ajuda que me recupere.

Meu hábito vem de longa data. Desde que consegui juntar as letras e elas fizeram sentido para mim. Minha mãe, sem saber a que ponto eu chegaria, me alfabetizou. Talvez, alguém, além dela, devesse ter percebido no que isso daria.

Mesmo antes de saber ler, lembro da Cícera - uma moça que trabalhou lá em casa -, lendo contos de fada enquanto eu almoçava. Todos os dias, enquanto ela lia A Branca de Neve, O Pequeno Polegar, A Bela Adormecida, A Pequena Sereia, eu empurrava a comida goela abaixo (sem perceber, eu comia chuchu) e imagina castelos, campos de açucenas, torres altas, princesas, príncipes e sapos. Foi ali, penso eu, que comecei a ficar dependente. Olhem que ameaça! Eu devia ter seis, sete anos. Uma criança ainda.

Depois, lembro de quando li o Sobradinho dos Pardais, aos oito ou nove anos, e de como saí recitando a história para quem quisesse ouvir. Só não me lembro de quem foram as vítimas. Como ninguém percebeu o caminho que estava tomando? A gente começa assim, em criança. E ninguém se atenta! Esse livro foi puxando outros. Todos os da coleção Vagalume, vendidos a qualquer um, independente da idade e por um preço acessível (na época). Quanta facilidade!

Quando ganhei o Livro de Ouro da Mitologia Grega (Ediouro), vi que existiam coisas mais envolventes. E eu quis conhecê-las. Assim, vieram Monteiro Lobato, Jorge Amado, Machado de Assis, Graciliano Ramos, José de Alencar. Vejam que li Monteiro Lobato na mesma época em que conheci Jorge Amado. Esse vício é mesmo indiscriminado. Não fazemos questão de estilo. Tudo nos interessa. Um perigo!

Ao ser presenteada com Pássaros Feridos, percebi que as coisas já estavam descontroladas. Tomei aquele livro com muitas páginas, pesado, cheio de letrinhas e percebi que nunca mais seria capaz de abandonar o vício. Não importava o que eu teria de abrir mão: horas sono, qualidade da visão (meu pai mandava apagar a luz e acendia uma vela, numa demonstração clara de insubordinação), televisão, conversas.

Mais tarde, fui imundada por uma coleção que uma amiga de minha mãe comprava, lia e me repassava. Pronto! Vejam como não sou a única responsável pelo estado em que as coisas chegaram. Tive muita ajuda nisso. São todos corresponsáveis. Pais, tias, professoras (inclusive a de piano). Nessa época, quase tive de passar por uma desintoxicação. Lia noite e dia. Tinha olheiras, mas, incrivelmente, minha saúde não foi prejudicada. Impressionante, não é?

Para o cúmulo do absurdo, com o passar dos anos, vi que nem só de romances se vive e me aventurei na filosofia. Nesse ponto, posso dizer que já consumia coisas pesadas e estava mais seletiva: um pouco de Platão, Kant, Epicteto, Sêneca. Muito inquietante. Com Blavatsky e Mário Rosso de Luna, desconfiei de que percorria um caminho sem volta.

Desde Pássaros Feridos, tenho predileção por produtos pesados, por isso não abro mão de Os Miseráveis, Um Defeito de Cor, As Benevolentes, O Primeiro Homem de Roma e tantos outros que têm mais de quinhentas páginas. Vejam que as coisas, com o tempo, só tenderam a piorar.

Hoje, sei que estou completamente perdida. Leio todos os dias! Olhem para isso! Não sou mais capaz de resistir. Claro que às vezes tenho ressaca literária e isso me dá a esperança de conseguir diminuir a dose, mas dura pouco. Em questão de dias, tudo volta com força renovada. A curiosidade, a vontade de conhecer autores novos, títulos novos, histórias, culturas.

O pior é que coleciono livros, procuro lançamentos, novas edições de livros de já li (um problema e tanto), sigo sites especializados, garimpo livrarias, tenho perfis em redes sociais sobre... livros! Grifo aquilo que me encanta, coleciono passagens preferidas, tenho um caderno no qual escrevo os destaques. Enfim, não há luz no fim do túnel.

Meus exemplares estão perigosamente espalhados pela casa, ao alcance de qualquer um, inclusive de crianças. Tenho-os no quarto também. Talvez isso não seja recomendável, mas nessa altura não dou mais ouvidos para conselhos ou considerações. Estão empilhados para que caibam nas estantes. Tenho-os em forma digital, no tablet, para que me acompanhem aonde quer que eu vá. Pode aparecer uma brecha para ler e não posso estar sem nada à mão! Corro o risco de uma crise de abstinência.

Sou tão viciada que colaboro para que outras pessoas também o sejam. Empresto, presenteio, compartilho, puxo conversar sobre o assunto. Acho que não entrarei no Paraíso depois disso.

Enfim, pessoal, tenham cuidado!

Livros são perigosos. Ensinam a pensar. Estimulam a imaginação. Renovam a mente. Influenciam a cultura. Alargam a visão.

Com o uso contínuo, você pode se tornar uma pessoa marginal por ter opinião própria, não acreditar em tudo o que lê, por discutir ideias e não se enquadrar mais em mundo sem literatura.

Depois, não digam que não avisei!


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