Pular para o conteúdo principal

O Corcunda de Notre Dame


A obra de Victor Hugo é um monumento construído por palavras, cuja beleza deslumbra a humanidade. É atemporal. Retratando outros séculos, é atual sempre.

Em o Corcunda de Notre Dame, o que se vislumbra entre suas páginas é o cenário francês do século XV, embora sejamos remetidos de tempos em tempos ao XIX, por meio das comparações feitas pelo autor.

A voz condutora da história é a do próprio Victor Hugo. É ele quem narra os acontecimentos que permeiam seus personagens, os quais desfilam diante de nossos olhos.

É possível ouvir o pandeiro tocado pela cigana Esmeralda nas praças de Paris, bem como o balido de sua inseparável cabritinha Djali. A juventude, a beleza, a ingenuidade e a bondade são as características de seu caráter de menina de quinze anos. Foi tomada pelo amor e perdida por ele.

Quasímodo foi construído com a complexidade que o personagem merece. Ao retratá-lo como "disforme", feio, surdo, capaz de causar medo e repulsa, Victor Hugo esclarece a forma como as pessoas com deficiência eram vistas e "acolhidas" pela sociedade francesa do século XV. A descrição dos habitantes do Pátio dos Milagres também nos dá a ideia desse "acolhimento". "Disforme" e surdo, Quasímodo tem um coração carente e ávido de amor. Sua adoração por Esmeralda desperta-lhe seus melhores anseios e gestos. É ele o herói da história.

O Arquidiácono Claude Frollo representa o intelectual da época. Culto e devotado às ciências, tem seus piores instintos exacerbados também por seu amor por Esmeralda. Frollo oscila entre o amor e ódio e seus atos são pautados por essas duas emoções igualmente potentes.

O capitão Phoebus é o perfeito fanfarrão disfarçado por ares de nobreza. Beberão, boêmia e noivo, é a grande paixão de Esmeralda para quem não devota a mesma adoração.

Há, ainda, os personagens secundários como, por exemplo, Pierre Gringoire, o filósofo que não tem onde cair morto ou o que comer, mas permanece feliz e amando a vida; o boêmio Jehan Frollo, irmão do Arquidiácono, que tem por objetivo extrair da vida toda a alegria, diversão e algazarra que é capaz.

Além dos personagens humanos que compõem o romance, dois outros se destacam: a Cidade de Paris e a Catedral de Notre Dame. Ambas são mais do meros lugares onde a ação se desenvolve: têm vida! No Livro Três, Victor Hugo nos conduz por Paris e por Notre Dame, apresentando-as uma por vez.

Paris é retratada como vista no século XV ainda dividida em três cidades totalmente distintas e separadas, tendo cada uma sua fisionomia própria, com funções, costumes, modas, privilégios e histórias particulares: a Cité, a Universidade, a Cidade.

Quanto à Notre Dame, a autor restaura para o leitor a admirável igreja indicando a maior parte das belezas, já desaparecidas, que apresentava no século XV.

Está é uma história de amor e desventura que em nada lembra uma animação da Disney. Repleta de referências históricas, citações e recheada de fina e elegante ironia, muitas vezes leva-nos de uma grande gargalhada para o aperto no coração em poucas linhas. Victor Hugo derrama toda a sua erudição, dando-nos uma narrativa simplesmente magistral.

Cabe, ainda, uma palavra sobre essa edição da Zahar. Composta por inúmeras notas que contextualizam o leitor, ela contém dezenas de ilustrações originais. É uma edição digna do texto de Victor Hugo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

George MacDonald

 

Cartas de Amor do Profeta

  Autor:  Khalil Gibran .  Editora: Ediouro. 112 páginas. “Um homem revela sua alma quando ama, e na correspondência com Mary Haskell encontrei o mundo interior de Gibran Kahlil Gibran”. Com tradução e adaptação de Paulo Coelho, este livro reúne as mais belas cartas de amor escritas pelo místico poeta autor de O Profeta e revela a alma deste que é, por sua universalidade, um dos pensadores mais admirados de nossa época. "Se eu aceito o sol, o calor e o arco-íris, preciso aceitar também o trovão, a tempestade e o raio". "A consciência de uma planta no meio do inverno não está voltada para o verão que passou, mas para a primavera que irá chegar." "Sempre acreditei, Mary, que a Revelação é apenas a descoberta de algo maior que já existe em nós mesmos, uma parte de nós que não ousamos penetrar - e que, entretanto, permite experimentar o que não ousamos sentir." "Quando alguém consegue trabalhar de dentro para fora, vive num estado de constante renasciment...

Precisamos Falar Sobre o Kevin

  Autor  Lionel Shriver  - Editora  Intrínseca - 464 páginas. Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos. Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem. Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela ...